A propósito desta página

e de

José Vilhena



 

Esta página deve o seu título ao texto do Sr. Joaquim Palhares, excelso funcionário da censura que, em Dezembro de 1965 dava o seu parecer sobre o livro ‘Humor Parisiense’, uma colectânea editada por Vilhena com desenhos de outros autores.

Reencaminhando-o para a P.I.D.E., propunha a sua ‘rigorosa proibição’, sugerindo também danos colaterais para a tipografia e distribuidora.

 

E reza assim o relatório do Sr. Palhares:

 

'O incorrigível e manhoso ‘’Vilhena’’ não quiz deixar acabar este ano de 1965 sem lançar a público mais uma das suas produções deletérias que por artes ocultas circulam sempre a despeito das proibições que sobre elas incidem.

 

Posto hoje à venda, segundo creio, não encontro neste livro uma única página que possa ser autorizável.

 

Portanto proponho a sua rigorosa proibição.'

José Vilhena é o autor incontornável do humor em Portugal. A sua obra, na tradição de Gil Vicente, Bocage ou Bordalo Pinheiro, é uma crónica dos tempos. Umas vezes pela crítica de costumes, outras vezes no olhar sobre a política, outras sobre a Igreja e, quase sempre, sobre a mulher.

 

Vilhena é dos poucos artistas em Portugal que domina e inclui na sua obra, a arte da escrita, do desenho, da ilustração, das fotomontagens nos seus primórdios, da fotografia, da revista à portuguesa e até numa breve incursão pelo cinema. Umas vezes, a maior parte, seguindo caminho do humorismo, outras, poucas, a da pintura – ‘dulcemente erótica’ como diz Rui Zink.

 

Cofundador d’ ‘O Mundo Ri’ em 1955, inicia um percurso individual no início de 60 com uma série de livros de bolso humorísticos, que escrevia, ilustrava, editava e distribuía pelo país inteiro, quase sempre pelas tabacarias. Fazem parte da coleção mais de 70 livros, 56 da sua autoria. Com alguns desses livros censurados e apreendidos pela ditadura de Salazar, é preso por três vezes pela PIDE e várias vezes chamado a responder aquando da saída dos livros, que muitas vezes eram vendidos por baixo do balcão, às escondidas. Foi também o responsável pela introdução de autores estrangeiros como Alphonse Allais, Alvaro de Laiglesia, Guy de Maupassant, Goscinny, Gogol, que editou dentro da sua coleção da sua editora ‘Branco e Negro’.

 

Vinte um dias depois da Revolução de 1974 saía a revista quinzenal ‘Gaiola Aberta’ que marcou, durante os primeiros anos da democracia, as publicações humorísticas em Portugal.

Utilizando vários meios ao seu alcance, como a escrita, o desenho, a pintura, as fotomontagens, a fotografia, etc, Vilhena lança a ‘Gaiola’ à semelhança de outras publicações humorísticas que existiam no estrangeiro, como El Jueves em Espanha, Le Cannard Enchaîné, em França, ou o Mad nos USA. Com a devida distância, obviamente, não por causa da qualidade, mas pelos meios ao dispor de cada uma dessas publicações, Vilhena foi sempre o ‘one man show’. Escrevia, desenhava, fazia as fotomontagens, paginava, e editava esta revista que só cessou a primeira série ao fim de nove anos, quando teve um processo interposto em tribunal pela princesa Carolina do Mónaco.

 

Depois desse episódio, foi autor e editor de outras publicações do género, como O Fala Barato, O Cavaco, O Moralista e novamente a Gaiola Aberta (2a série).

 

José Vilhena faleceu no dia 3 de Outubro de 2015 após doença prolongada com 88 anos.

 

 

 

A sua obra, relembrada de vez em quando, não tem atualmente o destaque que merece e é em grande parte desconhecida pelas novas gerações. O seu humor, patente nos desenhos, fotomontagens e escrita, é contudo ainda atual em muitos aspectos, para além da arte intrínseca a cada parte da sua obra.

 

Este espaço destina-se por isso à divulgação da sua arte enquanto humorista, pintor, escritor, editor, ilustrador e outras artes e ofícios onde pôs a mão. Será uma página provisória que, a seu tempo, brevemente, será enriquecida e estruturada de outra forma. A responsabilidade desta edição, será de Luís Vilhena, seu sobrinho.

 

Para todos aqueles que já são admiradores da obra de José Vilhena, este será um espaço onde poderão revisitar os desenhos, as publicações, as fotomontagens e alguns textos já publicados. A vossa participação e divulgação será por isso bem vinda. Para nos contactarem poderão fazê-lo por email: josevilhenahumorista@gmail.com, ou até, eventualmente, por telefone mas, como diria Vilhena, só se não chatearem muito.

© 2015 'O incorrígivel e manhoso VILHENA', por Luís Vilhena